Nação de memória curta - 8/6/2016

(Folha de S.Paulo)

Entristece constatar que importantes datas nacionais, como o 21 de abril, são esquecidas, percebidas só como mais um feriado nacional.

Tal descaso não é inédito e suscita perguntas: será que o brasileiro nada tem a comemorar depois de quase dois séculos de autonomia nacional? Nada do que se orgulhar em sua história?

Nada a preservar de seu passado, para legar às futuras gerações? Somos, assumidamente, nação de memória curta.

Não fosse assim, haveria motivos para rememorar momentos históricos, como a Inconfidência Mineira.

Mais recentemente, após mais de duas décadas de ditadura, veio a redemocratização, que resistiu à sequência de fatos adversos que marcaram sua primeira década e meia, entre os quais a morte de um presidente civil antes da posse e o impeachment de outro.

A economia avançou mais rapidamente do que a política, mas não com menos sobressaltos, bastando lembrar que, em 30 anos, o país enfrentou crises, passando pelos frustrantes planos de recuperação da moeda e as grandes crises internacionais do final do século.

Sempre se pode aprender com as crises. Ao lado da quebradeira geral, o tsunami financeiro trouxe para o centro do debate questões éticas que há muito haviam sido deixadas de lado e que, agora, começam a ser encaradas como o único caminho para restaurar a confiança nos sistemas bancários, nas políticas econômica e fiscal, no pulso dos governos para conter a ganância por ganhos financeiros exorbitantes, com a adoção de criteriosos marcos regulatórios e fiscalização eficiente.

O Brasil continua sob o impacto da crise, distantes da retomada do crescimento. Esse retrocesso contribui para agravar os sérios e crônicos problemas com que o país convive há séculos, sempre adiando as soluções eficazes e contentando-se com tímidos avanços, muitos dos quais resultantes mais da lei da inércia do que de decisões corajosas.

Em pleno século 21, as estatísticas mostram que mais de 40 milhões vivem (vivem?) abaixo da linha de pobreza; que 25% da população é analfabeta ou não consegue compreender o que lê; que 85 crianças em mil morrem antes de completar um ano; que, na média, o brasileiro tem uma defasagem de quatro anos na escolaridade, perdendo em empregabilidade e renda.

Pesquisas de opinião revelam o perigoso descrédito em que caíram as instituições públicas, consequência dos maus serviços prestados à população e dos escândalos que vêm à tona com regularidade assustadora.

Em outubro próximo, o eleitor irá às urnas, para escolher boa parte dos quadros políticos que comandarão o país nos próximos anos (prefeitos e Câmaras Municipais).

Será uma excelente oportunidade para renovar e sanear o cenário político, se os cidadãos responsáveis decidirem não apenas pautar seus votos por padrões éticos, mas também realizar um esforço adicional de cidadania, sensibilizando o maior número possível de eleitores para um fato: apenas a pressão de uma enorme massa de votos conscientes poderá trazer ao Brasil novos tempos, com mais justiça, mais dignidade e mais solidariedade.

Somente então, quem sabe, o 21 de abril e outras datas emblemáticas serão retiradas do ostracismo e condignamente comemoradas por uma sociedade mais moderna e mais igualitária.