Discurso pronunciado por Acácio Vaz de Lima Filho - 22/6/2016

Discurso pronunciado pelo Acadêmico titular da cadeira nº 60 que tem como Patrono Luiz Antonio da Gama e Silva, na missa de 30º dia em sufrágio da alma do Dr. Arnaldo Malheiros Filho.

 

Caríssimos amigos, do Arnaldinho e meus, antigos alunos da Academia de Direito de São Paulo, familiares e colegas de escritório do homenageado: Escolhido para desempenhar o dever --- doloroso --- de falar nesta cerimônia, serei breve, tratando do profissional e do homem; mais do homem do que do profissional...

Arnaldo Malheiros Filho: Seu nome o predestinava, porquanto, além de ser filho do também nosso amigo Dr. Arnaldo Malheiros --- autoridade em Direito Eleitoral --- foi ele "o filho querido do talento", e o maior criminalista brasileiro da sua geração... seus méritos como advogado já foram decantados, após a sua morte, por Tales Castello Branco e José Carlos Dias. Também Eros Grau o enalteceu, em comovente homenagem.

Aqui eu me limito a dizer que o imenso êxito profissional de Arnaldo Malheiros Filho jamais o deslumbrou, nem fez dele um técnico frio. Soube seguir, à risca, o mandamento de um ilustre pensador brasileiro, contido no "Código de Ética do Estudante": "Honra o diploma que um dia conquistares, mas não deixes que o profissional mate o homem que há dentro de ti." E Arnaldinho, como ninguém, enfrentou o desafio lançado por Rudyard Kipling: era capaz de entre a plebe não se corromper, e entre reis não perder a naturalidade... ele saiu destas Arcadas, nas quais ainda ecoam as palavras de Alfredo Buzaid, que ora faço minhas: Aqui, lutaremos pelo Direito, e buscaremos a Justiça, até que Deus envelheça!...

Conheci Arnaldo Malheiros Filho por intermédio de Edmundo Sussumo Fujita, também um integrante do nosso "Sindicato", um grupo de amigos das mais díspares orientações ideológicas, unidos pela indestrutível fraternidade acadêmica. E nos acamaradamos, como o diria Eça de Queirós, com a mesma facilidade com que se acamaradaram Jacinto e Zé Fernandes, de "A Cidade E As Serras." Dono de um intelecto privilegiado, Arnaldo era avesso aos exercícios físicos, lembrando Mycroft Holmes, o legendário irmão de Sherlock. Morei por uns tempos na casa de seus pais Dr. Arnaldo e Dona Magali, na Rua Gaivota. Admirei-me ao ver uma barra fixa no quintal. E o Arnaldo me confessou, encabulado, que nunca a usara...Foi o imobilismo físico que lhe valeu o apelido de "Planta", dado pelo Cassio Scatena. Este mesmo "Blanco", cujo senso de humor ombreia com o de João Paulo Maffei, dizia --- quando Arnaldinho descansava --- que ele "estava fazendo fotossíntese"...

Arnaldo foi meu querido e inesquecível companheiro dos bancos acadêmicos, e da frequência ao "Bar do Generoso", à "Pastelaria do Wen Toh" e ao "Bar do Dedéu", na Galeria Metrópole. Uma vez, cantávamos os dois na aula de Direito do Trabalho do saudoso Professor Egon Felix Gottschalk. Indignado, e com o seu inconfundível sotaque alemão, disse Gottschalk: "Aqui não é ôperra! Aqui não é corral! Bedêl, tirra os dois desordêrro do sala!..." e, quando íamos saindo de fininho, ele completou, fulminando Arnaldo com o olhar: "Infelizmente, a gordas é o representante do classe!..."

Na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, foi Malheiros o revitalizador da Academia de Letras, que integrou com brilho. Como lembra a Iara Silva, sua fidelíssima secretária, era ele um excelente contador de histórias. E completo eu que, se quisesse, poderia ter sido um dos grandes romancistas brasileiros, graças ao seu conhecimento do vernáculo, estilo elegante, incomparável penetração psicológica, e capacidade de dissecar situações da vida.

Tenho que aqui evocar os seus dotes de contabilista do "Sindicato", lembrados pelo Gustavo Andrade: Nos bares e restaurantes que frequentávamos, quando vinha a conta, era o Arnaldinho que, em guardanapos de papel, dividia o "quantum" entre os que estavam à mesa...

Clóvis de Caparaó implicava com a fama de "bom moço" do Malheiros, e o chamava, quando irritado, de "enfant gaté da Burschenschaft." Bom moço? Bom não, excelente. Mas não um "bancário." E bem por isto, sua amizade era um privilégio; um privilégio de que desfrutei. Sonhou deveras no início da sua carreira de advogado criminalista, ao lado do grande Vital Etienne Arreguy. E soube, nesta mesma Advocacia Criminal, realizar feitos épicos. Vivenciou "in totum" a lição do pensador patrício, mais uma vez aqui citado: "Se és incapaz de sonhar, nasceste velho. Se os teus sonhos te impedem de agir segundo a realidade, nasceste inútil. Se, porém, és capaz de transformar sonhos em realidades, e de tocar as realidades que encontras com a luz dos teus sonhos, então, tu serás grande na tua Pátria, e a tua Pátria será grande em ti." Por tudo isto, sempre que soar o "Quim quim querum", e sempre que forem entoadas as trovas acadêmicas, Arnaldo Malheiros Filho --- embora morto --- estará vivo entre nós, como o "Luiz Felipe" do Fujita, que ninguém via, mas existia!... Para concluir, recorro a Juó Bananére, de que ambos éramos entusiastas cultores: Ascolta, Garonello, anche io, u Capitó, sono un compositore gotuba, e eco una migna trova gademica fatta per Lei: "O maior nome do crime, bem longe dos companheiros, era o de um rapaz muito alegre, chamado Arnaldo Malheiros!..."