O futuro é inovação - 18/1/2017

(Correio Braziliense)

É preciso mudar para que tudo continue como está. Consagrada pelo príncipe de Salina no famoso romance O Leopardo, quando usada na política a frase soa cínica e reveladora de apego ao poder a qualquer preço. Já quando aplicada à economia moderna, ganha um significado saudável e serve de sinal de alerta, em especial para empresas muito bem-sucedidas e lucrativas. É até compreensível que, ofuscados por resultados financeiros e fatias de mercado que detêm, seus gestores tendam a certa acomodação, cedendo ao temor de mexer em time que está ganhando e, assim, mantenham-se fiéis ao presente ou, pior, ao passado. Entretanto, a experiência e o aconselhamento de especialistas mostram o outro lado da moeda, indicando que comandar empresas é como dirigir um automóvel no caótico horário de rush. É preciso multiplicar o olhar, atentando para o que ocorre ao lado, observando o que está atrás, mas sem deixar de mirar à frente, buscando antecipar os obstáculos que a próxima curva esconde e já planejando ações para vencê-los.

País tradicionalmente exportador de matérias-primas e importador de produtos de maior valor agregado – tendência que muito lentamente vai se invertendo –, somente há poucas décadas o Brasil está despertando para a importância de incrementar a pesquisa, a inovação e o desenvolvimento tecnológico – um descompasso que se traduz no baixo nível de investimento privado e público nessas áreas, no descolamento entre a atividade acadêmica e as necessidades da produção e no descaso para com a formação de profissionais aptos a atuar com as competências e habilidades exigidas pela nova realidade e, principalmente, pelos desafios que se antepõem à aspiração de ocupar uma posição destacada no conjunto das nações.

Segundo relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países mais ricos do mundo, a inovação é a fonte principal de dinamismo econômico e bem estar-social, sendo a chave tanto para vencer a recessão econômica quanto para colocar o desenvolvimento numa trajetória ambientalmente sustentável. Entretanto, a situação brasileira nos três indicadores de inovação – pesquisa e desenvolvimento (P&D), patentes e registro de marcas – não é das mais animadoras.

Um comparativo de investimento em P&D, para ficar apenas num exemplo, mostra o quanto o Brasil precisa avançar para atingir os patamares dos países desenvolvidos. Segundo dados do Instituto de Estudos de Desenvolvimento Industrial sobre a P&D nacional, o investimento privado é da ordem de 0,5% do PIB contra incentivos governamentais de 0,007% do PIB (excluídos os estímulos fiscais da Lei da Informática, considerada mais um instrumento de política econômica do que de alavancagem à pesquisa). Enquanto isso, no âmbito dos 30 membros do OCDE e alguns não membros, como China e Rússia, esse total atingiu 2,3 do PIB conjunto (a nada desprezível quantia de US$ 886,3 bilhões), tendo a iniciativa privada como a principal fonte de financiamento, respondendo por perto de 70% dos gastos.

Para alimentar certo alento, vale registrar alguns sinais positivos no horizonte, como as empresas que apresentaram projetos à Finep sob o guardachuva da Lei de Inovação. Mas é preciso intensificar e muito a participação da iniciativa privada, semeando a cultura da inovação no mundo corporativo e transformando-a em prioridade estratégica das organizações. Para a sobrevivência das empresas e o desenvolvimento do País a ordem é avançar ou perder, mais uma vez, o bonde da história.

As empresas privadas e públicas e as universidades e fundações de amparo à pesquisa precisam intensificar parcerias e desenvolver amplo programa de políticas públicas objetivando a construção de projetos que visem a melhoria de vida da população nas áreas da educação e saúde, principalmente. A participação das instituições financeiras e das micro, pequenas e médias empresas é fundamental para que os projetos se transformem em realidade e não venham a permanecer nas estantes de quem os encomendou.