“Bolivarianismo”, como e por quê? - 3/8/2014

“A mentira é endêmica nas esquerdas”, como tenho o costume de dizer, repetir e enfatizar. E uma das formas de mentir dos comunistas --- cientificamente a mais odiosa, e intelectualmente a mais desonesta --- radica na distorção, pura e simples, da História e dos fatos históricos. Esta distorção ocorre, inclusive, a respeito do auto batizado “Bolivarianismo”, movimento político e ideológico de inspiração marxista, e de conseguinte autoritária, fundado pelo caudilho venezuelano Hugo Chavez, com as bênçãos do falecido Fidel Castro, decano dos ditadores de todo o Orbe, e movimento aplaudido com fervor pelo P.T. e seus partidos satélites.

Como, em minha tese de livre-docência, dediquei todo um capítulo à temática da Censura no pensamento de Simón Bolívar, considero-me --- sem falsa modéstia --- ao menos razoavelmente habilitado a falar deste assunto. Na elaboração do capítulo em pauta utilizei-me, inclusive, da obra “Escritos Políticos”, da lavra do próprio General Bolívar, com seleção e notas de Graciela Soriano, Madrid, Alianza Editorial, S.A., 7ª edição, 1983.

A Genealogia é uma disciplina auxiliar da História. E sua importância era reconhecida pelo meu saudoso amigo e mestre Dr. Raimundo Pascoal Barbosa, um comunista sério, um homem decente, ótimo pai de família e um advogado modelar, que dizia ser importante conhecer a origem familiar dos indivíduos, “para saber em que mãos estamos”, dizia ele, com o seu simpático e inconfundível sotaque cearense.

Pois bem, Simón Bolívar procedia das mais antigas e nobres estirpes da aristocracia de Castela, vinda para a América Hispânica. Esta a sua origem familiar. E eu, “data venia”, desconheço a origem familiar do Coronel Hugo Chavez. Garanto, no entanto, que ele não vinha da aristocracia “das Espanhas”, como o diria Machado de Assis... E aí começa o despautério: Hugo Chavez, com a sua fisionomia de labrego insolente, costumava ser retratado sob o quadro que representava o grande Bolívar! Toda contrafação é ridícula: no quadro, o talhe elegante de um fidalgo e Oficial de Cavalaria. No homem vivo, o ar boçal de um condutor de jamanta na Rio-Bahia! ... em suma, faltava a Hugo Chavez, para se comparar a “El Libertador”, antes de mais nada, aquilo que os franceses, com a graça peculiar do seu idioma, chamam de “le physique du rôle.”

O que até aqui abordei, em todo o caso, é apenas grotesco. Grave é que Simón Bolívar era um humanista, um homem extremamente culto, um jurista e um talento multifacetado, ao contrário do seu pretenso seguidor Hugo Chavez, um brutamontes, um grosseiro e um ignorante. Assim, qualquer comparação entre ambos é mentirosa, e insultuosa. O lamentável é que o caudilho da Venezuela fez escola: Por aqui, o apedeuta Luiz Inacio da Silva tem o desplante de se comparar a Getúlio Vargas, um descendente dos Bueno de Itu, um Bacharel em Direito, que exerceu a Promotoria no Rio Grande do Sul, e que era um estudioso da Filosofia Positivista de Augusto Comte! Fluente em Francês e em Castelhano, Getúlio Dorneles Vargas era, em uma palavra, um cavalheiro e um estadista. É verdade que Luiz Inacio da Silva evoluiu muito, dos coletivos do ABC para os carros de luxo, e da “Pinga 51” para o “scotch. ” Mesmo assim, está muito longe de Vargas...

Ainda aqui, no entanto, não temos a grande mentira, em toda a sua perversidade. Esta consiste no seguinte: Simón Bolívar era um liberal convicto, com o corolário de que acreditava no Estado não intervencionista em matéria econômica, no livre exercício do direito de propriedade, e nas liberdades civis. Acreditava na liberdade de expressão. É o contrário do pregado pelos pretensos “bolivarianos”, partidários da estatização da Economia, e da brutal repressão aos opositores, como o demonstram os fatos recentes da mil vezes infeliz Venezuela.

Um ponto deve ser abordado, para finalizar estes comentários: --- Simón Bolívar era um homem visceralmente honesto, e capaz de admitir os próprios erros, com grandeza e com humildade. No fim da sua carreira, na célebre carta de Barranquilha, dirigida ao General Flores, “El Libertador” admitiu, sem rebuços, que o movimento armado dirigido contra a Coroa Espanhola havia sido um erro histórico, profetizando que a América, no futuro, seria o palco da atuação de tiranetes de vários matizes. Esta grandeza, esta honestidade, contrasta com o cinismo dos pretensos “bolivarianos”, que insistem nos próprios erros, indiferentes ao sofrimento dos povos que, pela força, dominam. Por isto, quando ouço esta palavra, “Bolivarianismo”, tenho que perguntar: --- “Cur? Ubi? Quando? Quomodo? ”...ou em vernáculo, “Porque? Onde? Quando? De que maneira”? ...