Redefinindo as definições

acacio vaz de lima filho 60O título deste artigo é uma homenagem a um antigo colega do "Convívio – Sociedade Brasileira de Cultura", e que, como eu, era um assíduo colaborador da "Agência Planalto de Notícias", ou, abreviadamente, "Agência Plana." Este colega, de cujo nome lamentavelmente não me recordo, usava sempre o título acima, para os seus inteligentes e eruditos comentários, alusivos à Política, à Economia, e a outros assuntos. É possível que o meu ilustre confrade na Academia Paulista de Letras Jurídicas, Professor Elivaldo Ramos se lembre do nome em pauta, pois também lecionou no "Convívio."

A nossa época é uma época de confusão e de falta de referências, em termos intelectuais, morais e éticos. E boa parte da confusão reinante, deriva da maneira defeituosa com que estamos a definir as coisas... em uma palavra, olvidamos a atemporal lição de Aristóteles de Estagira, de acordo com a qual, "os nomes derivam das coisas." E esquecemos, por igual, o ensinamento mais recente de Goffredo da Silva Telles Junior, para quem cada palavra possui um "sacrário", que é o seu significado.

Etimologicamente, "definir" quer dizer "estabelecer os limites" da cousa definida, extremando-a, assim, das demais coisas. O primitivo nome da Ação Demarcatória, "Actio Finium Regundorum", ilustra a afirmação ora feita.

Vou trabalhar com três expressões que, conquanto largamente utilizadas pela mídia (ou talvez justamente por isto), agridem a Lógica, e são intrinsecamente contraditórias. Tais expressões são "Antissemita", "Afrodescendente" e "Cristão Evangélico." A expressão "Antissemita" é utilizada para designar quaisquer atitudes hostis ao Povo Judeu e ao Estado de Israel. E tal expressão seria correta, SE os judeus fossem o único povo semita do mundo. E isto não é verdade. De acordo com a tradição bíblica, Noé teve os filhos Sem, Cam e Jafé. O primeiro seria o antepassado remoto dos semitas, Cam seria o ancestral dos Camitas, e Jafé, o patriarca dos jaféticos ou arianos. Deixando de banda esta tradição, temos outra: Os árabes descendem do patriarca hebreu Abraão, que teve um filho com a escrava Agar. Este filho, chamado Ismael, foi expulso com a sua mãe do lar de Abraão, por Sarah, esposa do seu pai... daí serem os árabes chamados, também, de "agarenos" ou "ismaelitas." Além dos árabes, no entanto, houve outros povos semitas na Antiguidade: Os fenícios (antepassados dos atuais libaneses), os assírios, os cartagineses, e assim por diante.

Mantido o uso correntio da expressão "antissemita", no momento em que um soldado do Exército de Israel, um judeu portanto, atirasse em um terrorista palestino, que é um árabe, teríamos o absurdo de "um semita praticando um ato antissemita"!... a recíproca também seria verdadeira. Ora, isto é uma contradição nos próprios termos, e com absurdos deste calibre não se constrói uma Ciência Política séria. Pior do que isto, não se escreve a História de maneira escorreita...

Passo à outra expressão. Tornou-se um modismo do imbecil "politicamente correto" chamar os negros de "Afrodescendentes." O raciocínio há pouco usado para os judeus e árabes é de serventia também aqui: A expressão seria corretíssima, SE, no continente africano, houvesse apenas povos negros!... ora, todo o Norte da África é povoado por Camitas (berberes) e por Semitas (Árabes). Assim, e "verbi gratia", o falecido Coronel Muamar Kadhafi era, não só um "afrodescendente", mas também, um africano!... Vou para o extremo oposto da África. Os "boeres" da África do Sul são brancos, muitas vezes loiros e de olhos azuis. Descendem de europeus. No entanto eles se afirmam --- orgulhosamente aliás --- "africanos"... Existe até uma língua, o "Africano", derivada do Holandês, falada por esta gente, e com uma literatura própria. Moral da história: Reservar a expressão "afrodescendente" para os negros, é errado, do ponto de vista científico.

Por fim, trato da terceira expressão. Uma aluna minha declarou-se, fazendo-o com muita convicção", "Evangélica." Não deixei por menos: Respondi que eu também, Católico, Apostólico Romano, era "evangélico", pelo motivo "ululantemente óbvio", como o diria Nelson Rodrigues, de que TODOS OS CRISTÃOS SEGUEM O EVANGELHO, A BOA NOVA!... esta aluna deveria ter dito "protestante", "luterana", "presbiteriana", "batista", ou o que fosse. "Evangélico" é um atributo de todo cristão. Dos que crêm nos ensinamentos de Jesus Cristo, o cordeiro de Deus que veio remir os pecados do Mundo!...

É preciso ir corrigindo estes equívocos. É mister pensar com clareza. E isto só é possível dando, às realidades, os nomes corretos. Afinal, a Humanidade precisa se entender!...

*Acacio Vaz de Lima Filho é advogado e professor universitário, Livre-Docente em História do Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo, Conselheiro do Instituto dos Advogados de São Paulo, Acadêmico Perpétuo da Academia Paulista de Letras Jurídicas, sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, e membro da União dos Juristas Católicos de São Paulo