O Largo de São Francisco, ontem e hoje

 acacio vaz de lima filho 60É amplamente sabido que a Faculdade de Direito de São Paulo foi fundada por S.M. o Imperador D. Pedro I, no dia XI de Agosto de 1827, sendo a irmã gêmea da Faculdade de Direito de Olinda, mais tarde transferida para o Recife. E é por igual conhecido o dado de que a Academia de São Paulo, ou simplesmente “a São Francisco”, que neste ano completou cento e noventa e um anos de existência, sempre foi um centro de formação da elite intelectual do Brasil, desempenhando um papel de destaque, inclusive, na preparação dos dirigentes políticos do Império e da República.

Dizia o saudoso Francisco Emigdio Pereira Neto, ou mais simplesmente o “Chico Emigdio”, que “a Academia não tem ex-alunos, tem antigos alunos.” E nisto andava com acerto o nosso inesquecível amigo, e antigo tesoureiro da Velha Faculdade: A nossa associação é dos “antigos alunos” das Arcadas. Sou um purista na matéria. Na minha exigente opinião, “antigos alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco” são aqueles que lá fizeram o curso de bacharelado. Esta conversa de “antigos alunos da Pós-Graduação” é profundamente infeliz, dando azo a que apedeutas formados não sei onde nem como, figurem ao lado dos autênticos franciscanos, aos quais se referia Homero Ubirajara Alvarenga: --- “Não mexa com franciscano!”

Inúmeros conselheiros e presidentes de província do Império, e mais de dez presidentes da República estudaram no velho convento franciscano, berço de juristas, estadistas, poetas e escritores de primeira água. Não é necessário nomeá-los nestes breves comentários, inclusive porque tais varões ilustres têm os seus nomes indelevelmente gravados na História de São Paulo e do Brasil.

Nesta ordem de ideias, a nossa Faculdade de Direito sempre foi um farol, a orientar e dirigir o pensamento nacional. É verdade que a decadência do ensino, que é uma das maldições deste país, afetou também --- e isto seria inevitável --- a velha Academia. Outro dia li um artigo, assinado por um antigo Presidente do “Centro Acadêmico XI de Agosto”, eivado de erros de Português. E --- “fatalidade atroz que a mente esmaga!” --- o artigo em tela era alusivo ao poeta Antonio de Castro Alves... esta decadência poderá ser sanada entretanto, se tivermos governos sérios no Brasil, sensíveis aos grandes problemas nacionais, e decididos a resolvê-los. Espero que o Presidente Bolsonaro, atento a inúmeros exemplos --- e um deles é o da Coréia do Sul --- se debruce sobre a melhoria do ensino nacional.

Centro criador e irradiador do pensamento brasileiro, e não só do pensamento jurídico, seja isto enfatizado, o Largo de São Francisco sempre orientou, sempre apontou rumos aos nossos patrícios, consciente do seu lugar na História desta Nação. É por este motivo muito triste que o Sr. Fernando Haddad, um antigo Presidente do nosso Centro Acadêmico XI de Agosto, e professor da Casa, quando candidato à Presidência da República, abdicando da sua personalidade e da sua própria individualidade, não tivesse pejo de afirmar: --- “Eu sou o Lula, eu sou o candidato do Lula!...” um homem renunciar à sua personalidade, e renegar o seu próprio nome, é algo muitíssimo grave. E esta gravidade cresce quando quem faz isto é, como o Sr. Fernando Haddad, um descendente de libaneses, de um povo que prioriza a família e os valores familiares!...

O que relatei acima é triste. E o outro comportamento do Sr. Fernando Haddad, de ir à cela de um presidiário, de um corrupto condenado, para pedir luzes e orientação para a sua campanha presidencial, é mais do que triste, porque é também vergonhoso no mais alto grau. Um antigo aluno do Largo de São Francisco se dispor a “aprender” com um metalúrgico boçal, corrupto e mau caráter, é algo que transcende a sua pessoa, para atingir, ferir e envergonhar todos os antigos alunos da nossa querida e gloriosa Academia de Direito de São Paulo. Por outras palavras, se o Sr. Fernando “Andrade” não se importa com a própria reputação, deveria pensar na dos outros antigos acadêmicos. Deveria se lembrar dos candentes versos de Pedro de Oliveira Ribeiro Neto, que encerram o “Canto de Glória da Faculdade de Direito de São Paulo”:

“Eu confio e espero em tua mocidade
Que é a mesma sempre, velha Faculdade,
Pois Ruy, e Nabuco, e mil outros que deram à Pátria
O seu nome glorioso, enchendo de luzes páginas da História,
Vão mostrando aos moços, por felicidade,
Que o teu nome sempre, minha Faculdade,
É a melhor das rimas para Liberdade,
É a melhor das chamas para o Altar da Glória!”

Um derradeiro conselho, Sr. Fernando Haddad: Tenha mais respeito para com a Casa que o gerou. Não compactue com a mentira, a corrupção, a farra com os dinheiros públicos e a boçalidade...

 

*Acacio Vaz de Lima Filho, advogado e professor universitário, é associado efetivo e conselheiro do Instituto dos Advogados de São Paulo, sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Acadêmico Perpétuo da Academia Paulista de Letras Jurídicas, e membro da União dos Juristas Católicos de São Paulo