Fonte: Jornal Classe A - janeiro/2026jornal gazeta tatuape 2

Em tempos de relativização de valores, afirmar que a honestidade é uma virtude pode soar ingênuo para alguns e até inconveniente para outros. Vivemos uma era em que o “jeitinho”, a esperteza e a flexibilização moral são, não raras vezes, exaltados como sinais de inteligência prática. Nesse cenário, a honestidade acaba sendo tratada como um ideal abstrato, bonito no discurso, mas pouco funcional na vida real. Essa leitura, porém, é profundamente equivocada.

É comum ouvir que honestidade não seria virtude, mas mera obrigação. De fato, sob o ponto de vista jurídico e social, agir honestamente é o mínimo esperado de qualquer cidadão. Ninguém merece elogio por não furtar, não fraudar ou não mentir deliberadamente. A honestidade, nesse sentido, constitui um dever básico de convivência, um pressuposto ético sem o qual a vida em sociedade se torna inviável. No entanto, reduzir a honestidade a simples obrigação é ignorar a realidade concreta em que ela se manifesta.

A honestidade torna-se virtude justamente quando seu cumprimento implica custo pessoal. Quando ser honesto significa perder vantagens, enfrentar críticas, contrariar interesses ou suportar prejuízos, deixa-se o campo da mera obrigação formal e ingressa-se no domínio da virtude moral. Virtude, afinal, não é apenas fazer o que é exigido, mas escolher o bem mesmo quando o mal parece mais fácil, rápido ou lucrativo.

Além disso, a honestidade não se limita ao cumprimento externo de regras. Ela exige coerência entre pensamento, palavra e ação, fidelidade à verdade mesmo quando não há fiscalização ou sanção. Nesse ponto, a honestidade ultrapassa o direito e ingressa na ética, revelando-se como traço de caráter. Pode-se obedecer à lei por medo da punição; ser honesto, porém, é agir corretamente mesmo quando ninguém está olhando.

No âmbito profissional e institucional, a honestidade continua sendo tratada, equivocadamente, como ingenuidade. Contudo, reputações sólidas e relações duradouras se constroem sobre a confiança, e esta nasce da previsibilidade ética. A desonestidade pode gerar ganhos imediatos, mas compromete a credibilidade e corrói as bases das relações humanas e profissionais.

Resgatar a honestidade como virtude — ainda que também seja obrigação — é um ato de resistência cultural. É reafirmar que o caráter importa, que os fins não justificam quaisquer meios e que a dignidade humana não está à venda. Em uma sociedade marcada pelo cinismo moral, ser honesto não é apenas cumprir um dever: é exercer coragem ética. E, por isso mesmo, a honestidade permanece sendo virtude — sim, virtude essencial.

*Advogado, psicanalista, professor e jornalista. 

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