Fonte: Estadão - Opinião - Por Ives Gandra da Silva Martins e Dircêo Torrecillas Ramos - 23/04/2026
Ives Gandra Dirceo Torecillas Ramos
O que se viu na Serra da Cantareira foi a manifestação de uma convicção
Num tempo marcado por incertezas culturais e transformações aceleradas, poucos acontecimentos conseguem reunir, com tanta eloquência, dimensão espiritual, relevância social e beleza simbólica quanto a recente ordenação sacerdotal promovida pelos Arautos do Evangelho.
Realizada na imponente Basílica de Nossa Senhora do Rosário, em Caieiras (SP), a cerimônia que elevou 26 diáconos ao sacerdócio, sob a imposição das mãos de Dom Raymundo Damasceno Assis, não foi apenas um rito litúrgico: foi a expressão viva de uma instituição em pleno florescimento.
Mais do que números — embora estes sejam eloquentes —, o que se testemunhou foi a consolidação de um carisma que, ao longo das últimas décadas, tem se afirmado com vigor no cenário religioso e cultural, tanto no Brasil quanto no exterior. A ordenação de novos sacerdotes representa o coroamento de anos de formação exigente, que integra vida espiritual, rigor acadêmico e experiência pastoral, formando homens preparados para responder às demandas profundas do mundo contemporâneo.
Há, nesse crescimento, algo que transcende a lógica meramente institucional. Trata-se de uma vitalidade que brota de convicções espirituais sólidas e de uma visão clara da missão: evangelizar por meio da beleza, da disciplina, da formação e da presença. Os Arautos do Evangelho compreenderam, com rara sensibilidade, que o homem moderno — muitas vezes fragmentado e carente de sentido — necessita não apenas de discursos, mas de experiências que elevem a alma e restituam a esperança.
A diversidade dos novos sacerdotes — provenientes de países como Brasil, Espanha, Portugal, Argentina, Colômbia e diversas nações da América Central — revela outro traço marcante: o caráter autenticamente internacional da instituição. Trata-se de uma igreja que se expande não por imposição, mas por atração; não por estratégias de poder, mas pela força silenciosa do testemunho.
A cerimônia em Caieiras, marcada por uma liturgia de grande solenidade e riqueza simbólica, ofereceu também um raro contraponto ao utilitarismo que domina tantas esferas da vida contemporânea. Ali, cada gesto — a imposição das mãos, a unção com o Santo Crisma, a entrega do cálice — recordava que há realidades que não podem ser reduzidas ao imediato ou ao mensurável. O sagrado, quando vivido com autenticidade, continua a exercer uma força de atração que nenhuma modernidade conseguiu suplantar.
Mas talvez o aspecto mais impressionante dos Arautos do Evangelho seja sua capacidade de unir contemplação e ação. Ao lado da formação religiosa e litúrgica, desenvolvem uma vasta gama de iniciativas sociais, culturais e educativas: projetos com jovens, ensino de música e arte sacra, missões evangelizadoras, retiros espirituais e ações junto a populações vulneráveis. Trata-se de uma presença concreta, que não se limita ao templo, mas se estende à sociedade.
Nesse sentido, a recente ordenação não representa apenas um evento interno, mas um sinal de esperança mais amplo. Em meio a um cenário frequentemente descrito como de crise de valores, o surgimento de novas vocações sacerdotais — especialmente em número significativo — aponta para uma realidade muitas vezes ignorada: a fé continua viva, operante e capaz de gerar frutos.
As palavras pronunciadas pelos próprios ordenandos sintetizam, com notável profundidade, o espírito que anima essa trajetória: “Gratidão e misericórdia”. Gratidão por um chamado que não se explica por méritos humanos; misericórdia por uma eleição que ultrapassa fragilidades e limites.
Nessa dupla dimensão, encontra-se a chave para compreender não apenas o sacerdócio recém-inaugurado, mas a própria identidade dos Arautos do Evangelho.
Em última análise, o que se viu na Serra da Cantareira foi mais do que uma celebração religiosa. Foi a manifestação de uma convicção: a de que, mesmo em tempos desafiadores, a busca pelo transcendente permanece como uma das forças mais profundas da experiência humana. E instituições que sabem cultivar essa busca, com seriedade e beleza, continuam a exercer um papel decisivo na construção de uma sociedade mais elevada.
Se o futuro da fé no mundo contemporâneo ainda é tema de debate, eventos como este oferecem uma resposta concreta — não teórica, mas vivida. Uma resposta que ecoa, silenciosamente, a partir de um altar: a de que a esperança, quando enraizada no espírito, não apenas resiste — ela floresce.
Opinião por Ives Gandra da Silva Martins
Chanceler da Academia Paulista de Letras Jurídicas (APLJ), professor emérito da Universidade Mackenzie, onde foi professor titular de Direito Constitucional
Dircêo Torrecillas Ramos
Professor doutor, livre docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), é vice-presidente da Academia Paulista de Letras Jurídicas (APLJ)