A Musa e a Toga

jose renato nalini 28O ofício de julgar é um dos mais angustiantes se o julgador não perder sua humanidade e se refugiar no automático tecnicismo que lhe rouba a alma. Para o insensível, o processo é um trabalho entediante ou um exercício retórico. Para aquele que assimila a verdade indiscutível de que cada processo guarda um destino, decidir sobre a liberdade, a honra, o patrimônio e a família do próximo é um fardo pesado.

Uma das salvaguardas da consciência é a conciliação entre a jurisdição e o cultivo da beleza. Sob múltiplas formas, ela pode coexistir com a aspereza de selar a sorte de um ser humano.

Felizes os que foram tocados pela inspiração poética. Os mais afortunados dentre os juízes são os que conseguem versejar. São os ungidos pela musa Erato, responsável pela poesia lírica na Grécia Antiga. As demais eram Terpsícore, a musa da dança, Euterpe, da música, Políminia, da música sacra, Melpômene, da tragédia, Tália, da comédia, Calíope da eloquência, Clio da História e Urânia, a musa da Astronomia

O verbete helênico mousa significa exatamente “canção” ou poema. As musas moravam no templo Museion, origem à palavra “museu”, espaço de preservação das artes e das ciências. Mas dela também derivou música, do grego musiké téchne, no significado de “arte das musas”. Por isso a poesia é a palavra que se ouve melodicamente. A música das letras se traduz poeticamente.

Tais reflexões foram suscitadas pela leitura de “Diluições Serôdias”, mais uma obra de Newton De Lucca, primorosamente editada pela Quartier Latin. Newton é desembargador federal, já presidiu o maior e mais importante dentre os Tribunais Regionais Federais Brasileiros, justamente o da 3ª Região, com sede em São Paulo e que exerce jurisdição também sobre o Mato Grosso do Sul.

Não é poesia escoteira, pois antes escreveu “Pintando o Sete”, “Odes e Pagodes”, mas também milita noutras áreas, sempre com brilho e lucidez, principalmente a Ética, a filosofia harmônica, tão próxima àquilo que a música deve produzir no espírito: equilíbrio, sensatez, racionalidade e apurada consciência moral.

Vale a pena ler “Diluições Serôdias”, de um juiz corajoso, cujo discurso de posse ao assumir o comando do TRF-3, pronunciado no Teatro Municipal de São Paulo, passou imediatamente às páginas mais vibrantes e heroicas da História do Judiciário Brasileiro.

Militando na trincheira do direito e inebriado pela musa Erato, não deixa de refletir, na obra poética, a melancolia da atual situação pátria, como no poema “Abracadabra”:

            Ó gênio

            da lâmpada maravilhosa

            de Aladim

            abre essa porta

            sinuosa

            do teu mágico jardim

            dos três desejos possíveis

            basta-me apenas um assim:

            políticos, empreiteiros e marqueteiros          

            todos bem longe de mim…

Em “Condição Humana”, algo da decepção que acomete aquele que tenta fazer justiça e se vê impotente, tantos os tentáculos da burocracia, do excessivo formalismo, da exagerada arrogância dos que se consideram o suprassumo da criação:

            No momento fatal

            A frustração final:

            Da vida aflita

            À treva infinita…

Quem faz poesia não encara a frustração. Disfarça o viés aflitivo na ternura com que burila as palavras e ilumina outras mentes, que não tiveram a graça da inspiração poética.

Sua messe valeu a pena, Magistrado e Poeta Newton De Lucca!

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.