Ainda existem amizades?

Quem tem um amigo tem um tesouro. Amigo é para se guardar a sete chaves, do lado do peito, bem junto ao coração. Amizade é o amor desinteressado. Quem já não ouviu tudo isso?

jose renato nalini foto b7926Mas será que ainda existem amizades no mundo de interesses em que nossa sociedade imediatista, consumista, narcisista e egoísta se transformou?

O que se pode dizer é que houve amizades de verdade. Documentadas por missivas que hoje foram substituídas pela sintética linguagem do WhatsApp. É cada vez mais impressionante ler a correspondência que os nossos antepassados mantinham, evidência de um vigor epistolar comprobatório da intensidade dos afetos.

Extraio um exemplo dos “Diários” de André Rebouças, tão esquecido hoje, mas que serve como paradigma de bom brasileiro.

Em 26.6.1896, escreve a seu amigo Carlos Gomes, a quem – desde 1870 – estimava e protegia. “Meu querido Carlos Gomes. Vai aqui meu coração abraçar-te, beijar-te e dizer-te que te amo e estimo cada vez mais… Tenho tanto a agradecer-te! Enviaste-me logo a “Província do Pará” de 15 de maio, descrevendo tua triunfal recepção; chegou depois o telegrama de 12 de junho – “Obidense 20 libras”. Ontem à tarde, recebi tua afetuosa carta de 9 de junho incluindo o cheque dessas 20 libras pelo Bando do Pará – Deus te abençoe!”.

E continua: “Lembro-me agora saudoso do princípio de nossa santa amizade. Foi a 9 de dezembro de 1870…Quase 26 anos! …Saudades! Saudades! Quantas saudades! A 11 de julho, teu aniversário natalício, duplicarei as preces a Deus, Justo e Bom, para que te abençoe, ao nosso Carletto (filho de Carlos Gomes e afilhado de André Rebouças) e a sua irmã Itala. – Carlos Gomes! Meu Amigo, meu compadre, meu Irmão! Recebe todo o coração de André Rebouças”.

A 16 de setembro de 1896, Carlos Gomes expirava, em Belém do Pará. Menos de dois anos depois, André Rebouças praticava suicídio em Funchal, onde passou seus últimos anos.

Deixaram testemunhos da genialidade em seus campos de atuação. A imortalidade musical de “O Guarani”, as consistentes edificações físicas das Docas do Rio e do revigoramento moral da Nação, além de prova inconteste de uma amizade de verdade.

Encontraremos em 2020 algo semelhante no pantanoso terreno dos afetos?

 

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE, Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020 e ocupa a Cadeira nº 28 na APLJ.