Discurso de Acacio Vaz de Lima Filho - Inauguração da “Biblioteca Arnaldo Malheiros Filho"

Discurso pronunciado pelo Professor Livre-Docente Acacio Vaz de Lima Filho, Acadêmico Perpétuo da Academia Paulista de Letras Jurídicas (Cadeira número 60 – Patrono: Professor Luiz Antonio da Gama e Silva), e Conselheiro do Instituto dos Advogados de São Paulo, quando da inauguração da “Biblioteca Arnaldo Malheiros Filho”, aos 26 – 06 – 2019, no escritório do saudoso criminalista.

     Queridos familiares, amigos, colegas de escritório e irmãos franciscanos de Arnaldo Malheiros Filho: Creio firmemente que a mais autêntica das homenagens que poderia ser prestada ao Arnaldinho, é esta ora feita no espaço da sua banca --- e não mero “escritório”! --- de Advocacia: A inauguração de uma biblioteca com o seu nome...

    acacio vaz de lima filho 60 O meu saudoso irmão nas Arcadas nasceu em uma família ligada aos livros, porquanto os Malheiros foram grandes leitores, autores e editores  de livros, neste sentido tendo sido genuínos “livreiros”, no mais puro sentido desta palavra. O seu pai, o ilustre Dr. Arnaldo Malheiros, é o consagrado autor de um clássico, “Eleições Municipais no Brasil”, obra insubstituível, que merece uma atualização. E o seu avô Dr. Aristides foi uma figura ímpar na “Revista dos Tribunais”, ao lado daquele gigante que foi o Professor Noé Azevedo.

     Arnaldinho fez o primeiro ano da Academia de Direito de São Paulo em 1968. Quando eu cruzava o Largo de São Francisco, perguntava a mim mesmo quem seria aquele calouro gordo e risonho, sempre ao lado de um japonesinho simpático e refinado. O calouro gordo era o Arnaldo, e o nissei era o Edmundo Fujita... acamaradamo-nos em breve, iniciando-se uma sólida amizade que duraria toda uma vida. E o início desta amizade está ligado não só à velha Faculdade de Direito de São Paulo, mas também à “Revista dos Tribunais”, onde Arnaldinho trabalhava.

     As minhas frequentes dependências e segundas épocas acabaram por nos colocar na mesma classe, no terceiro ano noturno de 1970. Arnaldo, sempre voltado para a literatura, foi o Presidente da Academia de Letras da Faculdade de Direito,  que dinamizou. E fui eu quem tive o privilégio de despertar a sua atenção e o seu gosto pelo poeta Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, o “Juó Bananére.” O poeta, nascido em Pindamonhangaba, e diplomado pela Escola Politécnica de São Paulo no início do século passado, teve o grande mérito filológico de registrar a linguagem, misto de Português e Italiano, falada nos bairros  paulistanos em que moravam os imigrantes italianos e os seus descendentes. Entre tais bairros, estava o Bom Retiro, o “Bó Ritiro”, em que funcionava a Politécnica.

    Produziu Juó Bananére  nesta algaravia duas obras fundamentais, “La Divina Increnca” e “Galabaro.” Arnaldinho e eu, dando continuidade a uma tradição que, nas Arcadas, remontava a Araken Testa, declamávamos os versos do poeta da Politécnica, e representávamos as suas peças, quer na pastelaria do Ven-Tóh, quer no Bar do Generoso. A nossa peça favorita era “A Ceia Dos Avaccagliado”, paródia burlesca da “Ceia dos Cardeais”, de Júlio Dantas. A mim cabia o papel do “Capitó”, isto é, do Senador Rodolfo Miranda. E o Arnaldo era o “Garonello”, o Coronel José Piedade. Ambos eram figuras da República Velha... o que disto resultou é que, para todo o sempre, Arnaldo e eu nos tratávamos reciprocamente como “Capitó” e “Garonello.” E Conrado Gidrão de Almeida Prado, hoje integrante deste escritório, e um colega, continuam a fazer uso destes verdadeiros pronomes de tratamento. Isto, Conrado, “aqueceu o coração do seu velho professor”, como o diria Goffredo da Silva Telles Junior...

     Arnaldo militou intensamente na política acadêmica do seu tempo, tendo integrado a chapa de Francisco Antonio Fraga, nas eleições para a Presidência do Centro Acadêmico XI de Agosto. E fez parte daquela entidade que Clóvis de Carvalho Junior, o “Clóvis de Caparaó”, chamava de “o clube mais fechado do Mundo.” Tratava-se do “Sindicato”, composto exclusivamente por alunos e antigos alunos da Faculdade de Direito de São Paulo, e que possuía apenas doze integrantes: Cassio Scatena, Clóvis de Carvalho Junior, Eduardo Lopes da Silva Neto, Vital Etiene Arreguy, Arnaldo Malheiros Filho, José Luiz Buck, Acacio Vaz de Lima Filho, Abdiel Reis Dourado, Antonio José Ribeiro da Silva Neto, Gustavo Augusto de Carvalho Andrade, Araken Testa e Edmundo Sussumo  Fujita. Desses doze membros chamados “Senadores”, em função do “Bar Senador”, seis já estão no que chamo de o “Páteo das Arcadas da Eternidade.”

     Na segunda época do ano letivo de 1970, mudei-me para a casa do Arnaldinho, na Rua Gaivota, para estudar. Pedi licença a ele para esta mudança, e não pedi licença ao Dr. Arnaldo e à Dona Magali, do que me penitencio nesta oportunidade!... nestes nossos estudos, Arnaldo deu provas daquele fino senso de humor que era a delícia de quantos com ele tiveram o privilégio de conviver. Havia na Faculdade a “Honorífica Ordem Acadêmica de São Francisco das Arcadas”, da qual era Chanceler, e posteriormente Grão-Mestre, o antigo aluno Wilson Cândido Ferreira Lopes de Almeida. Wilson se referia a ele próprio como “A Ordem.” Estávamos estudando títulos de crédito pelo livro do João Eunápio Borges, quando o Arnaldinho redigiu uma letra de câmbio nos seguintes termos: Aos tantos dias do mês de tal de 1971, pagará Vossa Senhoria a Wilson Cândido Ferreira Lopes de Almeida OU Á SUA ORDEM trinta e seis sestércios. O emitente era o bedel Joaquim de Oliveira, e o sacado, o “Xandoca”, vale dizer, o Professor Alexandre Augusto de Castro Corrêa!... este senso de humor, no qual jamais houve um laivo de maldade, acompanharia o meu amigo por toda a sua profícua existência. E tinha ele mais uma qualidade que considero indispensável no advogado criminal: O amor ao próximo, e a capacidade de oferecer conforto e solidariedade aos que sofrem. Na minha opinião de modesto estudioso da História do Direito, foi esta qualidade que fez, de Arnaldo Malheiros Filho, o “Filho querido do talento”, e o “primus inter pares.”

     Esta simples alocução é essencialmente franciscana. Peço pois vênia para a terminar com três trovas acadêmicas. A primeira foi feita pelo Professor Luiz Antonio da Gama e Silva, e é muito conhecida: “Onde é que mora a amizade? Onde é que mora a alegria? No Largo de São Francisco, na velha Academia!” A segunda, mais recente, foi composta pelo meu grande amigo, o poeta Paulo Bonfim: “O território que eu amo, é o coração da cidade. É puro como a saudade, é bom como a mocidade!” E a última por mim foi composta quando do falecimento do meu querido Arnaldinho: “O maior nome no crime, bem longe dos companheiros, era o de um rapaz muito alegre, chamado Arnaldo Malheiros!” Obrigado a todos pela atenção.