O legado de João XXIII

 

Foi no já distante ano de 1958 que faleceu o grande Papa Pio XII, nome adotado, quando da sua eleição para o trono de Pedro, pelo Cardeal Eugenio Pacelli, o homem que conduziu a Igreja no acacio vaz de lima filho 60tormentoso período da II Guerra Mundial. O seu sucessor foi o Patriarca de Veneza, o Cardeal Angelo Roncalli, que adotou como pontífice o nome de João XXIII.

Sua Santidade o Papa João XXIII será lembrado, com toda a certeza, em primeiro lugar por haver convocado o Concilio Ecumênico Vaticano II. Mas será ainda mais lembrado, creio eu com toda a convicção, como o Papa responsável pela pior crise que assolou a Igreja Católica, Apostólica e Romana, ao longo de toda a sua existência. E isto porquanto o mencionado concílio mergulhou a Igreja em uma crise de identidade.

Foi uma decisão do concílio em pauta, convocado e presidido pelo Papa João XXIII, que o Latim fosse abandonado como a língua litúrgica da Igreja, sendo substituído, na Santa Missa e em outras celebrações, pelos diversos idiomas nacionais. O argumento dos “inovadores” era o de que, sendo celebrada a Missa em Latim, os fiéis ficavam privados de entender o que o sacerdote dizia... o argumento em pauta é pueril, para dizer o mínimo: --- Na Religião, o fundamental é crer, e não entender. E as naves das igrejas não são outras tantas escolas de Retórica e de Dialética: --- São os locais em que os fiéis se põem em contato com o Criador. O nosso vocábulo “Religião” deriva diretamente da palavra latina “Religio, onis”, um nome imparissilábico da terceira declinação, do gênero feminino.

“Nomina sunt consequentia rerum”, ensina a filosofia aristotélico-tomista. Ou em vernáculo, “os nomes derivam das coisas.” Por meio da “Religião”, literalmente, o homem se “liga”, ou se “religa” a Deus Onipotente, seu Senhor e seu Criador. Na prática, a retirada do Latim da celebração tirou, à Igreja Católica, a sua nota de universalidade. E, com isto, ela saiu debilitada...

Na sua luta contra a tradição, o Concílio Ecumênico Vaticano II não se limitou a atacar o Latim: --- Introduziu ao revés inúmeras inovações na Liturgia, que acarretaram duas consequências nefastas para a Igreja de Cristo: --- A primeira foi a dessacralização, e a segunda, a laicização do Catolicismo. Não pode ser ignorado que a dessacralização e a laicização estão na base do enorme êxodo de católicos para as diversas denominações do Protestantismo. Tais católicos buscaram nas igrejas protestantes o contato com o elemento místico, que não mais encontravam na crença dos seus pais.

Com a sua habitual clarividência, adverte Hannah Arendt que na “tríade romana” constituída por Religião-Autoridade-Tradição, estes três elementos são tão intimamente unidos que, atacado um deles, os outros dois desaparecem. Não atentou para isto João XXIII, o Papa que, na Igreja, investiu contra a tradição. E o corolário disto foi o abalo da Autoridade, a começar da própria autoridade pontifícia... é nesta perspectiva, inclusive --- a da perda da Autoridade do Papa --- que deve ser visto o surgimento e a proliferação da malsinada “Teologia da Libertação”, de inspiração marxista, e pois, ateia e materialista. É verdade que os marxistas infiltrados na Igreja havia muito tempo --- e que foram extraordinariamente ativos nas sessões do Concílio --- criaram a figura absurda da “Teologia da Libertação.” Mas não há dúvida de que as inovações conciliares, com uma indevida e excessiva participação do laicato nas atividades do culto, propiciaram um campo fértil para que grassasse o mal. O mal? Sim, sem dúvida o mal... a pretensa “Teologia da Libertação” não era e não é nem “Teologia” nem “da Libertação.” Para início de conversa, ela tem o homem, e não Deus, como o centro das suas preocupações. É pois antropocêntrica, e não teocêntrica... deve ser chamada de “Antropologia” e não de “Teologia.” E, ao apoiar os regimes autoritários marxistas --- o que ficou patente na América Latina --- ela não é “da Libertação”, e sim “liberticida”!...

O Concílio Vaticano II abalara a Autoridade Papal. Assim os sucessores de João XXIII, de Paulo VI em diante, se viram em dificuldade para dar combate à malsinada “Teologia da Libertação”, que era e é, inclusive, herética, com tudo o que daí deflui.

Na Igreja pós-conciliar, desapareceram, ou pelo menos tiveram a sua importância muito diminuída, as irmandades religiosas, que constituíam a legítima participação dos leigos nas atividades do culto. Cruzada Eucarística, Congregação Mariana, Filhas de Maria, Irmandade do Apostolado da Oração, tudo desapareceu!... e no seu lugar surgiram as CEBs, isto é, as “Comunidades Eclesiais de Base” que, no trabalho de implosão da Igreja, ora em andamento, desempenham o papel das “células” do Partido Comunista. Tudo considerado, funesto foi e é o legado de João XXIII, que futuramente será, com toda a certeza, considerado um “Anti-Papa”, como muitos outros que conspurcaram a Cátedra de Pedro.

A nós católicos apostólicos romanos, só resta confiar na promessa de Cristo, feita a Pedro, no sentido de que as portas do Inferno não prevaleceriam contra a Igreja então fundada...

 

*Acacio Vaz de Lima Filho é Livre-Docente em Direito Civil, área de História do Direito, pela Faculdade do Largo de São Francisco, e Acadêmico Perpétuo da Academia Paulista de Letras Jurídicas. Dedica este artigo ao seu antigo instrutor no C.P.O.R. de São Paulo, o Coronel de Cavalaria Carlos Antonio Espírito Hofmeister Poli, um católico de quatro costados